
O que deve ser considerado risco em um investimento? A resposta mais comum está ligada à volatilidade: a oscilação do preço de um ativo e a possibilidade de a carteira cair. Para Rodrigo Sgavioli, sócio e head de alocação da XP, essa definição é insuficiente quando se trata de pessoas físicas.
Segundo Sgavioli, o investidor não aplica dinheiro apenas para obter uma determinada rentabilidade. Ele tem objetivos que precisam ser alcançados em diferentes momentos da vida, como comprar um imóvel, financiar a educação dos filhos, se aposentar ou preservar patrimônio para os herdeiros.
“Aprendemos a medir risco por volatilidade, estresse e oscilação de preço. Mas, quando falamos de pessoas físicas, precisamos olhar por outra ótica: elas têm objetivos diferentes ao longo do tempo”, afirmou Sgavioli durante o painel “Se o CDI não é livre de risco, qual o papel do assessor?”, realizado nesta quinta-feira (23), na Expert XP 2026, em São Paulo. A mediação foi feita por Victor Furtado, head de alocação da W1 Capital.
A partir dessa perspectiva, uma queda temporária da carteira pode não ser o maior risco para um investidor de longo prazo. O problema pode estar justamente em uma carteira que não tenha potencial suficiente para financiar o objetivo planejado.
“Será que o maior risco é chegar à aposentadoria e não ter patrimônio suficiente para manter o padrão de vida? Ou é ver a carteira oscilar e cair 10% no curto prazo?”, questionou.
O prazo muda o que é risco
Para Sgavioli, o horizonte de tempo é um dos principais elementos para definir o risco de uma aplicação.
Para quem pretende comprar um imóvel em um ano, por exemplo, uma queda significativa nos investimentos pode comprometer diretamente o objetivo. Nesse caso, há pouco tempo para esperar uma eventual recuperação dos preços.
Já para quem investe para a aposentadoria, com um horizonte de décadas, a oscilação de curto prazo pode ter um peso menor — desde que a carteira esteja adequada ao objetivo e ao prazo.
“Se o cliente quer comprar um imóvel em um ano, a volatilidade é um risco que deveria estar mais incorporado, porque há pouco espaço de tempo. Mas quanto maior o horizonte para alcançar um objetivo, menos a volatilidade representa o risco”, disse.
Por isso, não haveria uma resposta única para a pergunta sobre qual é o investimento mais seguro. “Vai depender de quem você está falando, qual é a janela de tempo e para qual objetivo”, afirmou.
CDI tem baixa volatilidade, mas não garante o futuro
A discussão sobre o CDI parte de uma contradição. A taxa costuma ser vista como uma referência de segurança por apresentar baixa volatilidade e acompanhar os juros de curto prazo. Mas, se o risco for definido como a possibilidade de não alcançar um objetivo, o CDI não necessariamente será o investimento mais adequado para todos os prazos.
Para Sgavioli, um ativo considerado livre de risco deveria combinar baixa probabilidade de calote, proteção em grandes crises e capacidade de aumentar a chance de o investidor alcançar seus objetivos.
O problema é que não é possível saber hoje qual será a rentabilidade do CDI ao longo de um período extenso.
“Quando invisto no CDI, qual será a minha rentabilidade em dez anos? Não se sabe”, afirmou.
Isso não significa, segundo ele, que o CDI não tenha função em uma carteira. A taxa pode ser adequada para objetivos de curto prazo e para a parcela de liquidez do patrimônio.
O risco de olhar apenas para o presente
A dependência do CDI como referência também pode levar o investidor a tomar decisões com base em um cenário de juros que pode não se manter.
Sgavioli citou o período em que a Selic esteve em 2% ao ano, durante a pandemia de Covid-19, como exemplo de que as condições do mercado mudam. Em momentos de juros mais baixos, investimentos pós-fixados atrelados ao CDI podem oferecer retornos menores do que os observados em períodos de juros elevados.
“O cliente pode acreditar que vai permanecer com esse juro real para sempre. Mas não vamos conseguir manter necessariamente esse nível de juros. Haverá ajustes, e os juros podem começar a cair para patamares diferentes”, afirmou.
Por isso, para quem trabalha com o planejamento financeiro de longo prazo, perseguir a rentabilidade do CDI no curto prazo pode ser uma estratégia inadequada.
“Se somos responsáveis pelo longo prazo do cliente, é imprudente mirar no CDI de curto prazo”, disse.
Planejamento antes da carteira
Na avaliação do executivo, a definição de uma estratégia de investimento deveria começar antes da escolha dos produtos financeiros.
O primeiro passo seria entender a vida do cliente: quais são seus objetivos, em quanto tempo pretende realizá-los e quais riscos está disposto a assumir para chegar até eles, além de toda sua estrutura familiar.
“O planejamento financeiro não deveria ser tratado apenas como uma base de dados. Ele é um mapa que o cliente está dando sobre a própria vida”, afirmou.
A partir dessas informações, o assessor poderia organizar os objetivos em diferentes horizontes e definir uma política de investimentos para cada um deles.
Assessor como filtro de decisões
O comportamento do investidor é outro elemento que pode afastá-lo de seus objetivos. Em momentos de alta, ele pode querer comprar ativos que já subiram. Em períodos de queda, pode decidir vender justamente quando os preços estão recuando.
Para Sgavioli, uma das funções do assessor é evitar que o cliente altere a estratégia a cada mudança do mercado.
“Quando tudo estiver subindo, o investidor vai querer comprar tudo. Quando tudo estiver caindo, vai querer vender tudo. Então, quando houver um bull market, por exemplo, o assessor terá de proteger o cliente dele mesmo”, afirmou.
A função do profissional, nesse cenário, não seria encontrar uma aplicação capaz de gerar um ganho extraordinário em pouco tempo, mas ajudar o investidor a manter uma estratégia coerente com seus objetivos.
“No longo prazo, não se deve tentar encontrar uma bala de prata ou acertar o investimento que vai tornar alguém rico da noite para o dia”, disse.
Para Sgavioli, o profissional que conseguir entender como a carteira se relaciona com as necessidades do cliente terá uma função que vai além da escolha de ativos.
“O assessor que vai se diferenciar é aquele que entende de gente e entende como o portfólio se encaixa nas necessidades do cliente”, disse.
Nesse modelo, a carteira não precisa ser avaliada apenas pela pergunta “bateu ou não bateu o CDI?”. A questão central passa a ser se a estratégia está aumentando a probabilidade de o investidor alcançar aquilo que planejou.
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